A violência na Bahia atingiu um patamar alarmante: símbolos, gestos, roupas e cortes de cabelo — antes considerados escolhas pessoais ou modismos — tornaram-se, em muitos casos, potenciais indícios de filiação a grupos criminosos. Essa apropriação simbólica pelas facções gera clima de medo e insegurança no cotidiano da população.
Na Pituba, Salvador, um comerciante foi advertido por usar uma camisa da Adidas logomarca com três listras que, conforme denúncias locais, foi “reivindicada” pelo Bonde do Maluco (BDM). Esse tipo de episódio revela como a simbologia virou terreno de guerra entre as facções.
Gestos, cortes e marcas: o uso simbólico da violência
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Levantar dois dedos (o gesto “paz e amor”) pode ser interpretado como sinal de indicação ao Comando Vermelho (CV), quando visto sob a ótica do tráfico local.
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Levantar três dedos, comum em grupos de rock e manifestações culturais, corre o risco de ser associado ao BDM.
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Cortes de cabelo ou sobrancelhas com dois ou três riscos, antes vistos como estilo, passaram a ser vinculados a facções rivais.
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Marcas esportivas ou culturais também foram incorporadas: a Adidas, devido às três listras, tornou-se alvo de associação com o BDM, enquanto o Mickey Mouse foi adotado pela facção A Tropa.
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Camisas de seleções como Argentina, França, Colômbia, Jamaica, Israel e Portugal já foram relatadas em “bondes” do BDM. Por outro lado, o Flamengo tem sido apontado como símbolo adotado por integrantes do CV em algumas regiões.
Além disso, outras facções utilizam símbolos próprios: a Katiara costuma usar o pentagrama em tatuagens, e o escorpião é frequentemente representado por membros do CV.
Panorama da violência na Bahia dados recentes
Queda no primeiro semestre de 2025
Dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) apontam que, entre janeiro e junho de 2025, foram registradas 2.053 mortes violentas intencionais no estado (incluindo homicídios, latrocínios, feminicídios e lesões seguidas de morte). Isso representa uma queda de 7,3% em comparação com o mesmo período de 2024, quando o total foi de 2.214 casos.
Na capital, Salvador, a redução foi ainda mais expressiva: –16,6% no número de mortes violentas no período.
Dados anuais e histórico recente
A SSP-BA informou que o ano de 2024 encerrou com o menor número de mortes violentas dos últimos 17 anos no estado.
Outros dados preocupantes:
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Em 2023, foram assassinadas 945 adolescentes só na Bahia, além de 48 crianças vítimas de homicídio (dados do Atlas da Violência).
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O Painel Estatístico de Segurança Pública da Bahia disponibiliza registros sistemáticos de Mortes Violentas Intencionais (MVI) e outros crimes contra a vida.
Esses números mostram que, embora alguns indicadores apontem redução recente em determinados períodos, os níveis de violência continuam elevados e com padrão histórico preocupante.
Reflexos sociais e de segurança pública
A apropriação de símbolos tradicionais pela criminalidade amplia o medo entre cidadãos comuns. Itens como uma camisa de time, um gesto em foto ou um corte de cabelo podem ser interpretados como provocação ou alinhamento a uma facção — o que, em localidades dominadas pelo tráfico, pode resultar em consequências letais.
Especialistas em segurança pública alertam que a guerra simbólica entre facções fortalece o controle territorial e simbólico que o crime exerce sobre populações vulnerabilizadas. Para quem vive em bairros mais afetados, dizer “não usar símbolos” virou estratégia de autodefesa — mesmo que a determinação parta de um indivíduo que só pretendia vestir uma camisa ou dar um estilo ao visual.
